terça-feira, 30 de agosto de 2011

SOLIDÃO
(Aíla Sampaio)

Há muito pra esquecer:
paredes retintas
cicatrizadas nas retinas,
a confusão de vozes na varanda
o entra e sai de gente compadecida.
Tantas coisas pra não lembrar
e que insistem em viver
nos destroços da minha memória!

Fosse fácil não ter medo
eu voltaria no tempo
pra pegar a menina que eu fui
e colocá-lo no colo.
Para sempre órfã, ela sabia...
e escondeu-se em si mesma
como se se bastasse...
ninguém a protegeu daquela dor
silenciosa e seca;
ninguém viu sua solidão
fazer-se eterna naquele dia.

domingo, 28 de agosto de 2011

ÁGUA DOCE DO RIO
(Terê Penhabe)

A água do rio é doce
só até chegar no mar,
pois quer queira ou não queira
ele sempre há de chegar.
E ele vem petulante,
certo de que irá adoçar
com sua mansidão de longe
toda a violência do mar.
Ao perceber seu engano
se enfurece e quer voltar,
mas é sempre muito tarde
que a pororoca se dá.
O mar, em contradição,
abre os braços e o recebe
no melhor do coração
como o amor que lhe apetece.
Nessa suave união
corpos se banham felizes
sentindo o sal do mar
e a mansidão do aprendiz.
Que sem ter pra onde ir
aceita seu novo destino
vai entrando com carinho
no gigante tão humilde.
Essa magia tão bela
que ao rio, o mar aquartela
vale a pena conhecer.
Sentir na alma e na pele
a carícia inconfundível
de águas doces que se salgam
deixando então de ser rios.

sexta-feira, 26 de agosto de 2011

DESTINO
(Wilson Gonçalves)

Em uma manhã ensolarada
Uma rosa perfumada
Desabrochou em um jardim.

Uma lagarta asquerosa
Que por lá ia passando
Ao ver a beleza da rosa
A ela disse chorando:

Oh, linda princesa
Coroada de beleza,
Eleita da natureza,
Como invejo sua grandeza!...

Você mora nas alturas,
Não conhece a solidão
Enquanto eu, desgraçada,
Vivo sempre jogada,
Me arrastando pelo chão.

Quem passa por você
Para pra lhe contemplar,
Mas se alguém passar por mim
Pensa logo em me matar

Você cheia de beleza,
É o símbolo do amor...
Eu sou cheia de feiura,
Sou símbolo do horror.

Eu queria saber de Deus
Qual foi o mal que eu fiz
Que me fez tão desgraçada,
Na vida tão infeliz.

Então lá das alturas,
Com um olhar de ternura
A rosa assim respondeu:

Você fala como louca
Que não tem entendimento.
Olha a minha beleza,
Mas não vê meu sofrimento.
Estou presa aqui no chão
E jamais irei andar,
Mas você, com longas asas,
Bem mais alto irá voar.

Sem entender nada a lagarta dali partiu,
Construiu um casulo e dentro dele dormiu.

Pouco tempo depois,
Chorona se despertou
Uma linda borboleta com asas multicor.

Relembrou da velha rosa
E de tudo que falou,
Mas veio o passarinho e a coitada degustou...

Copie essa lição e aprenda a ser feliz
Lá em cima ou lá embaixo
Foi assim que Deus o quis.

quinta-feira, 25 de agosto de 2011

MELODRAMA
(Bruna Lombardi)

Eu sou uma mulher espantada
o amor me molha toda
me deixa com dor nas costas
ele diz no fundo gostas
no fundo ele tem razão

o amor tinha de ser
mais uma contradição
tinha de ser verdadeiro
confuso e biscateiro
como em toda situação

tinha de ter remorso
e um querer e não posso
e toda essa aflição

tinha de me dar pancada
e eu cantar não dói nem nada
com um radinho na mão

tinha de fazer ameça
que é pra poder ter mais graça
como toda relação
tinha de ser dolorido

rasgar um pouco o meu vestido
depois me pedir perdão
e como em todo melodrama
terminar na minha cama
até por falta de opção.

terça-feira, 23 de agosto de 2011

O BURACO DO ESPELHO
(Arnaldo Antunes)

O buraco do espelho está fechado,
agora eu tenho que ficar aqui
com um olho aberto, outro acordado
no lado de lá onde eu caí.

Pro lado de cá não tem acesso,
mesmo que me chamem pelo nome,
mesmo que admitam meu regresso;
toda vez que eu vou a porta some.

A janela some na parede,
a palavra de água se dissolve
na palavra sede, a boca cede
antes de falar, e não se ouve.

Já tentei dormir a noite inteira.
Quatro, cinco, seis da madrugada...
vou ficar ali nessa cadeira;
uma orelha alerta, outra ligada.

O buraco do espelho está fechado,
agora eu tenho que ficar agora.
Fui pelo abandono abandonado
aqui dentro do lado de fora.

sexta-feira, 19 de agosto de 2011

A FLOR ESCOLHIDA
(Geralda Maria Vieira)

Era uma flor em desatino,
Pois caiu do galho em que morava
E saiu rolando com o vento
Sem saber qual destino tomava.

Perdeu-se do galho onde cresceu,
E sem saber para onde o vento a levava,
Lembrou-se dos olhares apaixonados
Que a sua beleza tanto encantava.

Mas ela não deixou que fosse interrompida
A vida que por Deus lhe fora doada.
Lutou contra a força do destino
Que a levava ao desatino,
Mesmo sendo ela a flor escolhida
Dos beija-flores em revoada.

Mas ela viu que nem tudo estava acabado
Só porque não estava onde queria ficar.
Viu que a vida nos reserva surpresas,
Por isso, não devemos nos desesperar.
Era ela a flor por Deus escolhida
Para nossas vidas enfeitar.

terça-feira, 16 de agosto de 2011

NU
(Manuel Bandeira)

Quando estás vestida,
Ninguém imagina
Os mundos que escondes
Sob as tuas roupas.

(Assim, quando é dia,
Não temos noção
Dos astros que luzem
No profundo céu.

Mas a noite é nua,
E, nua na noite,
Palpitam teus mundos
E os mundos da noite.

Brilham teus joelhos,
Brilha o teu umbigo,
Brilha toda a tua
Lira abdominal.

Teus exíguos
- Como na rijeza
Do tronco robusto
Dois frutos pequenos –

Brilham.) Ah, teus seios!
Teus duros mamilos!
Teu dorso! Teus flancos!
Ah, tuas espáduas!

Se nua, teus olhos
Ficam nus também:
Teu olhar, mais longe,
Mais lento, mais líquido.

Então, dentro deles,
Bóio, nado, salto
Baixo num mergulho
Perpendicular.

Baixo até o mais fundo
De teu ser, lá onde
Me sorri tu'alma
Nua, nua, nua...

segunda-feira, 15 de agosto de 2011

CATANDO BASCUI
(Lília Diniz)


Habita em mim
a singela casa
da minha infância

Na fartura do quintal
o limoeiro traquino
florido sempre
adoçando meus ouvidos
com os cantares diários
do passaredo em festança


O velho sabugueiro
perfuma abril em flores
curando febres
estouradas em cataporas
e alucinações
em labaredas

O telhado de cavacos
pesa sobre o tempo
que insiste não passar

Lamparinas atrepadas
nas paredes de taipa
incandeiam a imensidão
dos meus olhos meninos

Sala
quarto
cozinha
abrigam o quase nada de mim

Mas é lá no terreiro
barrido todo amanhecer
pelas cuidadosas mãos de meu pai
que brinco de catar
restos de sonhos e lembranças

quinta-feira, 11 de agosto de 2011

AI! SE SÊSSE!...
(Zé da Luz, www.ablc.com.br)

Se um dia nós se gostasse;
Se um dia nós se queresse;
Se nós dois se impariásse,
Se juntinho nós dois vivesse!
Se juntinho nós dois morasse
Se juntinho nós dois drumisse;
Se juntinho nós dois morresse!
Se pro céu nós assubisse?
Mas porém, se acontecesse
qui São Pêdo não abrisse
as portas do céu e fosse
te dizê quarqué toulíce?
E se eu me arriminasse
e tu cumigo insistisse,
prá qui eu me arrezorvesse
e a minha faca puxasse,
e o buxo do céu furasse?...
Tarvez qui nós dois ficasse
tarvez qui nós dois caísse
e o céu furado arriasse
e as virge tôdas fugisse!!!

quarta-feira, 10 de agosto de 2011

ALEMBRAMENTOS
(Michel Yakini)


Alembro de um tempo
que o mundo
era maior, bem maior
e cabia dentro do nosso abraço.


Alembro do dia
que vi um canarinho
lacribeijando o sol,
lhe dando de beber.

Alembro de cores minhas,
Ausentes,
que por fim
não esbarro mais.

Alembro que eu gostava
de vagar por aí
a ouvirtude
que o silêncio dizia.

Até uma vez,
ainda miúdo,
me ensinaram
que "Alembrar"
é um erro!

depois disso,
tem coisa que não lembro,
mas do resto me alembro de tudo!

domingo, 7 de agosto de 2011

PRIMEIRO
(Efigênia Coutinho)

Neste breve espaço da tua boca
Cabe o desejo mais intenso.
Todo o afeto que sobejo
Está neste beijo que nos toca,
A fundir as almas em ato imenso
Onde nada realmente se compara,
Com este grandioso, tão forte desejo
Que em nosso redor paira.
Desde o primeiro beijo desejado,
Podemos mil beijos acrescentar
Sempre com o mesmo desejo,
Mas nenhum nunca será
Como aquele assim tão esperado,
Mágico, perfeito, o primeiro beijo,
Do qual vai ser guardado na lembrança
Sentindo a mesma emoção,
Dum beijo feito aliança,
A marcar para sempre o coração.

sábado, 6 de agosto de 2011

BELEZA
(Almeida Garrett)

Vem do amor a Beleza,
Como a luz vem da chama.
É lei da natureza:
Queres ser bela? - ama.

Formas de encantar,
Na tela o pincel
As pode pintar;
No bronze o buril
As sabe gravar;
E estátua gentil
Fazer o cinzel
Da pedra mais dura...
Mas Beleza é isso?
Não; só formosura.

Sorrindo entre dores
Ao filho que adora
Inda antes de o ver
- Qual sorri a aurora
Chorando nas flores
Que estão por nascer –
A mãe é a mais bela
das obras de Deus.
Se ela ama! –
O mais puro do fogo dos céus
Lhe ateia essa chama
De luz cristalina:

É a luz divina
Que nunca mudou,
É luz... é a Beleza
Em toda a pureza
Que Deus a criou.

sexta-feira, 5 de agosto de 2011

TODO MUNDO TEM MEDO UMA VEZ NA VIDA
(Francisco Libânio)

Todo mundo tem medo uma vez na vida,
Medo de escuro, medo de ouvir um não,
Medo do fracasso, medo de fazer em vão,
Medo de ter toda a esperança perdida,

Todo mundo chorou ou numa despedida
Ou quando não deu pra segurar a emoção;
Chorou porque o amor sofreu retaliação
Ou porque o medo deu aquela tremida

Eu mesmo perdi as contas dos choros
Ou dos medos que tive sem vergonhas,
Arrependimentos e lamúrias tristonhas,

Fiz dos choros e dos medos meus soros,
Choro ainda? Sim. Tenho medo? Claro!
Mas hoje, eu os uso como meu anteparo.

quinta-feira, 4 de agosto de 2011

OITO ANOS
(Cassiane Schmidt)


Hoje acordei ancorada em árvore
Com os lábios salivando antigos frutos
Acordei com oito anos de idade
Nos braços do meu velho mundo!

Os antigos ladrilhos da estrada
Recebiam, resignados, minha alegria
A noite parecia uma dama encantada
Festejando sua vitória sobre o dia


Me vi toda colorida
Com os pés misturados ao chão
O futuro é triste partida
Caminho inevitável de toda direção

Meu coração amanheceu feito varanda aberta
Onde pousam as aves do sul
O horizonte é apenas uma linha reta
Pra quem só enxerga o azul...

As velhas árvores misturavam
Frutas, céu e crianças
Os generosos galhos abrigavam
Em tons verdes a infância...

O velho balanço nasceu em cordas
Acordando antigos ventos
Na vida o que realmente importa
É a eternidade que sobrevive ao momento

quarta-feira, 3 de agosto de 2011

MORTE DO SONETO
(Raimunda Murta)

Forma fixa, prisioneira de caprichos.
Em ti a arte se reduz,
Não mais que dez mais quatro
Para encerrar sombra e luz.

Linhas decassílabas, e pronto!...
O sentimento em número se transforma.
Tens que caber nessa sequência,
Pois obedeces a uma fixa forma.


És clássica, estás no passado
Com o ourives que te torna
Uma jóia declarada.

Em ânsia de fechar-se em quatro,
Nos limites da forma estagnada,
Morre o soneto... sufocado.

terça-feira, 2 de agosto de 2011

DEFORMIDADE
(Ludmila Marra)

Eu sou a má formação humana
Sou o feto abortado da virtude
A interrupção, a morte, a tortura do capricho...

Sou o ápice do mal feito,
Sou o sonoro não da beleza,
Sou sim imagem e semelhança do imperfeito.

A feiúra em espécie legitima,
Sou a merecida imagem do castigo,
Sou decepada, mutilada, envenenada...
Sou tudo de feio que nasceu comigo.

Sou o olhar deformado, sofrido,
Com vergonha de ser.
Sou o erro divino,
O rosto sem olhos,
O não, o não, o não
O mais doído,
O dentro da viola,
O pão e o medo de aparecer.

segunda-feira, 1 de agosto de 2011

O AMOR
(Vanilson Reis)

O amor é uma ilusão eterna
Que produz angústia
Em nosso peito
Dado como consolação
Aos homens desesperados.

Quando o amor tece sonhos
A gente se completa
Veste a alma com palavras
Amamento o sentimento.

Ninguém vive a ternura do amor
Porque ele não existe
Para sempre.
Ah! Se existisse, meu Deus...
E tudo fosse diferente.

Um dia o mundo mudará
E as pessoas se tornarão
Cativas do amor.
E o homem que não mente
Aclamará suas emoções
Nos olhos da mulher.