sexta-feira, 30 de março de 2012

POEMINHA DE LOUVOR AO "STRIP-TEASE" SECULAR
(Millôr Fernandes)

Eu sou do tempo em que a mulher
Mostrar o tornozelo
Era um apelo!
Depois, já rapazinho,
vi as primeiras pernas
De mulher
Sem saia;
Mas foi na praia!

A moda avança
A saia sobe mais
Mostra os joelhos
Infernais!

As fazendas
Com os anos
Se fazem mais leves
E surgem figurinhas
Em roupas transparentes
Pelas ruas:
Quase nuas.
E a mania do esporte
Trouxe o short.
O short amigo
Que trouxe consigo
O maiô de duas peças.
E logo, de audácia em audácia,
A natureza ganhando terreno
Sugeriu o biquíni,
O maiô de pequeno ficando mais pequeno
Não se sabendo mais
Até onde um corpo branco
Pode ficar moreno.

Deus,
A graça é imerecida,
Mas dai-me ainda
Uns aninhos de vida!

sábado, 24 de março de 2012

CHICO ANYSIO
(Vilma Piva)

A Arte de Chico
É única em mil faces,
Eterna, sem igual.

Mestre do humor
Alegrou as nossas vidas,
Chico, o professor!

Ator, humano!
Personagens diferentes.
Chico, soberano!

quinta-feira, 22 de março de 2012

CACHOEIRA
(Luciana Dimarzio)

Tal como água
Fluo
Mato a sede
Apago o fogo
Inundo...

Mas também
Deságuo
Dissipo
Evaporo...

E broto novamente da terra.

Às vezes
Grande lagoa
Outras tantas
Pequeno ribeirão
Às vezes
Chuva fina
Outras tantas
Tempestade com travão

Mas nunca água represada.

E assim sigo escoando,
feito cachoeira,
contornando os obstáculos
rumo ao grande oceano...


Por ocasião do DIA MUNDIAL DA ÁGUA, celebrado em 22 de março.

terça-feira, 20 de março de 2012

COM LICENÇA POÉTICA
(Adélia Prado)

Quando nasci um anjo esbelto,
desses que tocam trombeta, anunciou:
vai carregar bandeira.
Cargo muito pesado pra mulher,
esta espécie ainda envergonhada.
Aceito os subterfúgios que me cabem,
sem precisar mentir.
Não sou feia que não possa casar,
acho o Rio de Janeiro uma beleza e
ora sim, ora não, creio em parto sem dor.
Mas o que sinto escrevo. Cumpro a sina.
Inauguro linhagens, fundo reinos
— dor não é amargura.
Minha tristeza não tem pedigree,
já a minha vontade de alegria,
sua raiz vai ao meu mil avô.
Vai ser coxo na vida é maldição pra homem.
Mulher é desdobrável. Eu sou.

domingo, 18 de março de 2012

SONHO
(Bocage)

De suspirar em vão já fatigado,
Dando trégua a meus males eu dormia;
Eis que junto de mim sonhei que via
Da Morte o gesto lívido e mirrado:

Curva fouce no punho descarnado
Sustentava a cruel, e me dizia:
-Eu venho terminar tua agonia;
Morre, não penes mais, ó desgraçado!


Quis ferir-me, e de Amor foi atalhada,
Que armado de cruentos passadores
Aparece, e lhe diz com voz irada:

-Emprega noutro objecto teus rigores;
Que esta vida infeliz está guardada
Para vítima só de meus furores.

sexta-feira, 16 de março de 2012

SONETO PERPÉTUO
(Lourdes Neves Cúrcio)


Poetizar é dar mais cor e encanto à vida;
É externar os sentimentos mais velados;
Deixar o sonho em versos ser transformado
E a emoção em estrofes ser traduzida.

A arte de expressar o amor é do poeta
Que das mãos divinas recebeu o dom
Da inspiração de versejar em suave tom
Que toca a alma, reconforta e aquieta...


Seja o poeta aquele que irá transmitir
O que o âmago em silêncio está dizendo
E o coração está deveras a sentir.

E o ecoar dos versos vai ultrapassando
A tênue linha imaginária do horizonte
Para com o cosmos ir então se perpetuando..

terça-feira, 13 de março de 2012

AOS CORAÇÕES QUE SOFREM
(Olavo Bilac)

Ao coração que sofre, separado
Do teu, no exílio em que a chorar me vejo,
Não basta o afeto simples e sagrado
Com que das desventuras me protejo.

Não me basta saber que sou amado,
Nem só desejo o teu amor: desejo
Ter nos braços teu corpo delicado,
Ter na boca a doçura de teu beijo.

E as justas ambições que me consomem
Não me envergonham: pois maior baixeza
Não há que a terra pelo céu trocar;

E mais eleva o coração de um homem
Ser de homem sempre e, na maior pureza,
Ficar na terra e humanamente amar.

quinta-feira, 8 de março de 2012

HAJA O QUE HOUVER
(Joésio Menezes)

Haja o que houver,
A sábia mulher
Do salto jamais desce,
Pois sabe da importância
De se manter a elegância
Acima do estresse.

Ela sabe, também,
Que o salto a mantém
Inda mais imponente.
Mas se dele descer,
Ela não deixará de ser
Uma mulher inteligente

Cuja mente brilhante
Não para um instante
De a todos encantar...
Haja o que houver,
Dos fascínios da mulher
Não me canso de falar.


Às MULHERES, por ocasião do DIA INTERNACIONAL DA MULHER

terça-feira, 6 de março de 2012

NÃO SE MATE
(Carlos Drummond de Andrade)

Carlos, sossegue!...
O amor é isso que você está vendo:
hoje beija, amanhã não beija,
depois de amanhã é domingo
e segunda-feira ninguém sabe o que será.
Inútil você resistir
ou mesmo suicidar-se.
Não se mate, oh!.. não se mate!
Reserve-se todo
para as bodas que ninguém
sabe quando virão,
se é que virão!...
O amor, Carlos, você telúrico,
a noite passou em você,
e os recalques se sublimando,
lá dentro um barulho inefável,
rezas,
vitrolas,
santos que se persignam,
anúncios do melhor sabão,
barulho que ninguém sabe
de quê, pra quê.
Entretanto você caminha
melancólico e vertical.
Você é a palmeira, você é o grito
que ninguém ouviu no teatro
e as luzes todas se apagam.
O amor no escuro, não, no claro,
é sempre triste, meu filho, Carlos,
mas não diga nada a ninguém,
ninguém sabe nem saberá.

terça-feira, 28 de fevereiro de 2012

MINHA MUSA
(Machado de Assis)

A MUSA, que inspira meus tímidos cantos,
É doce e risonha, se amor lhe sorri;
É grave e saudosa, se brotam-lhe os prantos.
Saudades carpindo, que sinto por ti.

A Musa, que inspira-me os versos nascidos
De mágoas que sinto no peito a pungir,
Sufoca-me os tristes e longos gemidos
Que as dores que oculto me fazem trair.


A Musa, que inspira-me os cantos de prece,
Que nascem-me d’alma, que envio ao Senhor.
Desperta-me a crença, que às vezes ‘dormece
Ao último arranco de esp’ranças de amor

A Musa, que o ramo das glórias enlaça,
Da terra gigante - meu berço infantil,
De afetos um nome na idéia me traça,
Que o eco no peito repete: - Brasil!

A Musa, que inspira meus cantos é livre,
Detesta os preceitos da vil opressão,
O ardor, a coragem do herói lá do Tibre,
Na lira engrandece, dizendo: - Catão!

O aroma de esp’rança, que n’alma recende,
É ela que aspira, no cálix da flor;
É ela que o estro na fronte me acende,
A Musa que inspira meus versos de amor!

sexta-feira, 24 de fevereiro de 2012

ASSIM SERÁ...
(Rangel Alves da Costa)

Vasto e belo mundo
de vida bela e vasta felicidade
ainda que digam que não
sei que existirá sempre
um mundo e uma vida assim
aqui mesmo nessa fronteira
aqui mesmo dentro de nós

e me vem essa doce manhã
me vem esse canto de pássaros
me vem o som das folhagens
me vem o segredo dos bichos
me vem a natureza cantante
me vem as alegres miragens
me vem a estrada aberta
me vem o destino de hora incerta
para encontrar com a realidade
e construir o desígnio de Deus
alicerçar a paz e a felicidade

ainda que digam não
ninguém quer a escuridão
ao abrir a porta e a janela
mas o vasto e belo mundo
de vasta felicidade e vida bela.

quarta-feira, 22 de fevereiro de 2012

POEMA DE UMA QUARTA-FEIRA DE CINZAS
(Manuel Bandeira)

Entre a turba grosseira e fútil
Um pierrot doloroso passa.
Veste-o uma túnica inconsútil
feita de sonho e de desgraça…

o seu delírio manso agrupa
atrás dele os maus e os basbaques.
Este o indigita, este outro apupa…
indiferente a tais ataques,

Nublava a vista em pranto inútil,
Dolorosamente ele passa.
veste-o uma túnica inconsútil,
Feita de sonho e de desgraça…

terça-feira, 21 de fevereiro de 2012

SONHANDO
(Álvares de Azevedo)

Na praia deserta que a lua branqueia,
Que mimo! que rosa! que filha de Deus!
Tão pálida... ao vê-la, meu ser devaneia.
Sufoco nos lábios os hálitos meus!
Não corras na areia,
Não corras assim!
Donzela, onde vais?
Tem pena de mim!

A praia é tão longa! e a onda bravia
As roupas de gaza te molha de escuma...
De noite, aos serenos, a areia é tão fria...
Tão úmido o vento que os ares perfuma!
És tão doentia...
Não corras assim...
Donzela, onde vais?
Tem pena de mim!

A brisa teus negros cabelos soltou,
O orvalho da face te esfria o suor,
Teus seios palpitam — a brisa os roçou,
Beijou-os, suspira, desmaia de amor!
Teu pé tropeçou...
Não corras assim...
Donzela, onde vais?
Tem pena de mim!

E o pálido mimo da minha paixão
Num longo soluço tremeu e parou,
Sentou-se na praia, sozinha no chão,
A mão regelada no colo pousou!
Que tens, coração?
Que tremes assim?
Cansaste, donzela?
Tem pena de mim!

Deitou-se na areia que a vaga molhou.
Imóvel e branca na praia dormia;
Mas nem os seus olhos o sono fechou
E nem o seu colo de neve tremia...
O seio gelou?...
Não durmas assim!
Ó pálida fria,
Tem pena de mim!

Dormia: — na fronte que níveo suar...
Que mão regelada no lânguido peito...
Não era mais alvo seu leito do mar,
Não era mais frio seu gélido leito!
Nem um ressonar...
Não durmas assim...
Ó pálida fria,
Tem pena de mim!

Aqui no meu peito vem antes sonhar
Nos longos suspiros do meu coração:
Eu quero em meus lábios teu seio aquentar,
Teu colo, essas faces, e a gélida mão...
Não durmas no mar!
Não durmas assim.
Estátua sem vida,
Tem pena de mim!

E a vaga crescia seu corpo banhando,
As cândidas formas movendo de leve!
E eu vi-a suave nas águas boiando
Com soltos cabelos nas roupas de neve!
Nas vagas sonhando
Não durmas assim...
Donzela, onde vais?
Tem pena de mim!

E a imagem da virgem nas águas do mar
Brilhava tão branca no límpido véu...
Nem mais transparente luzia o luar
No ambiente sem nuvens da noite do céu!
Nas águas do mar
Não durmas assim...
Não morras, donzela,
Espera por mim!

sábado, 18 de fevereiro de 2012

O DIA DO NOSSO BAILE
(Patrícia Ximenes, www.patriciaximenes.com)

Nosso baile será encantador
Eu de Colombina e você de Pierrot
Buscando um doce afeto
O amor de quem eu tanto quero.

Nossa dança será muito linda
Cheia de emoção e de magia
Os beijos serão infinitos
Será o encontro mais bonito.

Quando a orquestra finalizar
Não iremos nos separar
Caminharemos a um lugar
Onde lá poderemos nos amar.

Nosso amor será tanto!
Depois não haverá mais pranto
De você não irei largar
Para sempre um belo par.

As recordações permanecerão vivas
Até o fim de nossas vidas.
Pois o amor verdadeiro é ilustre
Lindo e infinito enquanto dure.

(texto inspirado na música “ Baile de Máscaras”, de Guilherme Arantes)

quinta-feira, 16 de fevereiro de 2012

QUANDO FAÇO ACONTECER
(Vitalves, www.vitalves.com)

Se me entendes é um gênio
Se me ouves é louco
Já sonhei um milênio
Só vivi um pouco
Sigo os traços de um laço
Rego as ondas do mar
Transfiro ondas no espaço
Faço um astro girar
Tenho um pouco de louco
Tenho passos de mago
Sigo em fé no sufoco
Sou o vilão num estrago
Amo ouvir o silêncio
Adoro fazer barulho
Faço lágrimas molharem um lenço
Sou uma serpente num embrulho
Sou a fúria do entendimento
De repleta ignorância
Vigor de conhecimento
E rigor de tolerância
Eu sou fonte de prazer
Quando faço acontecer.