terça-feira, 6 de março de 2012

NÃO SE MATE
(Carlos Drummond de Andrade)

Carlos, sossegue!...
O amor é isso que você está vendo:
hoje beija, amanhã não beija,
depois de amanhã é domingo
e segunda-feira ninguém sabe o que será.
Inútil você resistir
ou mesmo suicidar-se.
Não se mate, oh!.. não se mate!
Reserve-se todo
para as bodas que ninguém
sabe quando virão,
se é que virão!...
O amor, Carlos, você telúrico,
a noite passou em você,
e os recalques se sublimando,
lá dentro um barulho inefável,
rezas,
vitrolas,
santos que se persignam,
anúncios do melhor sabão,
barulho que ninguém sabe
de quê, pra quê.
Entretanto você caminha
melancólico e vertical.
Você é a palmeira, você é o grito
que ninguém ouviu no teatro
e as luzes todas se apagam.
O amor no escuro, não, no claro,
é sempre triste, meu filho, Carlos,
mas não diga nada a ninguém,
ninguém sabe nem saberá.

Um comentário:

  1. Adorei que vc colocou um classico do REI DAS POESIAS e gostaria de contribuir com este acervo tão esplendido!!!!!!

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