terça-feira, 14 de maio de 2013

O AVESSO
(Patrícia Ximenes)

Tem dias que acordamos cedo porque
o sono cansou de dormir...
Tem dias que saímos de casa porque
o cômodo tornou-se desconfortante...
Tem dias que xingamos demais porque
a educação nunca manda lembranças...
Tem dias que a saudade está tão absurda que
o melhor a fazer é provocá-la...
Tem dias que o amor é tão grande que
a vontade de testá-lo vem à tona...
Tem dias que queremos ser tanta coisa que
o melhor a fazer é sermos os mesmos...
Tem dias que escrevemos coisas que
nem sempre sabemos o porquê...
Tem dias que até pensamos seriamente que
podemos sim, mudar...
Tem dias que temos certeza de que
mudar é tão difícil...
Tem dias que lutamos para que
nos tornemos sempre pessoas melhores...
Tem dias que pensamos que
poderiam ser melhores conosco...
Tem dias que
deveriam
ser noites...

sexta-feira, 10 de maio de 2013

A FOTO
(Daniel Guimarães)


Se for nítida, é inteligível.
Se for escura não tem graça de se ver.
Se for clara, me cega.
Se for feia, não quero nem saber.
Se misteriosa, logo perde a graça.
Se rara, quero muito ter.
Se desfocada me abstraio.
Se antiga, a observo desfazer.
Se digital, ignoro os detalhes.
Se de criança, espero-a crescer.
Se revelada, a ponho ao contrário.
Se enigmática, fico sem saber.
De tantas fotos, tantas elas,
é difícil escolher...
todas elas muito belas,
nem sei quais eu quero ter.
Tantas fotos tantas suas,
logo a que fui viver,
uma escolha inteligente:
nunca irei me arrepender.
vida minha, foto nossa,
vida nossa a nascer.
como é bela a nossa vida,
e o amor nosso a crescer.

domingo, 21 de abril de 2013

O TRAÇO EQUIVOCADO DO ARQUITETO

(Nicolas Behr)

O traço equivocado do arquiteto
é superfície,
papel oficio é superfície,
a superfície da catedral
é superfície,
grama também é superfície,
a solidão da superquadra
é superfície,
o volume do bloco é superfície,
o lago Paranoá, mesmo seco,
é superfície.

Brasília é superficial...


PARABÉNS, BRASILIA!




sexta-feira, 29 de março de 2013

SEXTA-FEIRA DA PAIXÃO
(Ângela Lugo)


Naquela quinta-feira um dos seus te deu um beijo
Não um beijo de amor... Mas de pura traição
Entregando-te aos soldados do desamor
Aqueles que te prenderam... Açoitaram-te
Ao invés de sentir por ti compaixão
Machucaram-te até fazer a tua carne sangrar
O que tu passaste naquela noite só tu o sabes
E aqueles que lá junto a ti se encontravam
E naquela sexta-feira...
Fizeram-te carregar uma cruz pela Via Sacra
Deixando teu corpo transfigurado pela dor
Caia... Levantava-se e lá caminhava
O povo simplesmente olhava nada fazia
Com os olhos amedrontados apenas te viam
Quando chegou ao teu destino já quase desfalecia
Ainda tinha a pior parte... Aquela que tu temias...
Chegaram os soldados para que te pregassem
Naquela cruz que pelo caminho carregavas
E quando os cravos começaram a serem fincados
A dor quase já não existia, já havia transpassado
Pelo tamanho do sofrimento que já havia passado
Quando terminaram nem sequer se preocuparam
Com teus gritos abafados pelo da multidão descarada
Assim a cruz com o teu corpo desfalecido foram içados
Eles não se conformaram que ainda estavas acordado
Levantaram a lança e teu coração foi perfurado
Ó quanta covardia... Mesmo assim, ainda os perdoaste.
Ó Jesus como pode ter sido tão injustiçado
Esqueceram que ali jazia o corpo do Pai amado
E também que sua glória mais forte que a...
Humanidade


domingo, 24 de março de 2013

QUANDO ELA FALA
(Machado de Assis)



Quando ela fala, parece
Que a voz da brisa se cala;
Talvez um anjo emudece
Quando ela fala.

Meu coração dolorido
As suas mágoas exala,
E volta ao gozo perdido
Quando ela fala.

Pudesse eu eternamente,
Ao lado dela, escutá-la,
Ouvir sua alma inocente
Quando ela fala.

Minha alma, já semimorta,
Conseguira ao céu alçá-la
Porque o céu abre uma porta
Quando ela fala.