sexta-feira, 29 de outubro de 2010

INEXPLICAVELMENTE
(José Décio Filho)

Eu não precisava de luares,
porque eles fazem sonhar perdidamente
e eu já tenho a cabeça pesada de sonhos.

Não precisava do teu indeciso amor,
porque o meu amor é imenso e vário,
transbordante e humilde.

Não precisava da ternura
que esperei dos teus lábios,
porque uma voz mais legítima,
voz que se perdeu nas distâncias,
já derramou nos meus ouvidos
rios de consolo e de afeto.

Alegrias, torturas, aflição,
mágoa violenta e crispante,
solidão, desdém, insultos,
noites e manhãs virginais,
caminhos de sombra e de luz,
esperanças, paisagens e ruídos,
esperanças que não mais se esgotarão.
De nada disso eu precisava,
pois tenho tudo dentro de mim
como dádiva do mundo
e herança de outras vidas.

Mesmo assim, porém,
tudo isso procuro ansioso
pra me afligir ainda mais,
para ver se transbordo de uma vez!

quinta-feira, 28 de outubro de 2010

TODAS AS VIDAS
(Cora Coralina)

Vive dentro de mim
uma cabocla velha
de mau-olhado,
acocorada ao pé
do borralho,
olhando para o fogo.
Benze quebranto.
Bota feitiço...
Ogum. Orixá.
Macumba, terreiro.
Ogã, pai-de-santo...
Vive dentro de mim
a lavadeira
do Rio Vermelho.
Seu cheiro gostoso
d'água e sabão.
Rodilha de pano.
Trouxa de roupa,
pedra de anil.
Sua coroa verde
de São-Caetano.
Vive dentro de mim
a mulher cozinheira.
Pimenta e cebola.
Quitute bem feito.
Panela de barro.
Taipa de lenha.
Cozinha antiga
toda pretinha.
Bem cacheada de picumã.
Pedra pontuda.
Cumbuco de coco.
Pisando alho-sal.
Vive dentro de mim
a mulher do povo.
Bem proletária.
Bem linguaruda,
desabusada,
sem preconceitos,
de casca-grossa,
de chinelinha
e filharada.
Vive dentro de mim
a mulher roceira.
-Enxerto de terra,
Trabalhadeira.
Madrugadeira.
Analfabeta.
De pé no chão.
Bem parideira.
Bem criadeira.
Seus doze filhos,
Seus vinte netos.
Vive dentro de mim
a mulher da vida.
Minha irmãzinha...
tão desprezada,
tão murmurada...
Fingindo ser alegre
seu triste fado.
Todas as vidas
dentro de mim:
Na minha vida –
a vida mera
das obscuras!

quarta-feira, 27 de outubro de 2010

SORRI
(Charlie Chaplin)

Sorri quando a dor te torturar
E a saudade atormentar
Os teus dias tristonhos, vazios.

Sorri quando tudo terminar,
Quando nada mais restar
Do teu sonho encantador.

Sorri quando o Sol perder a luz
E sentires uma cruz
Nos teus ombros cansados, doridos.

Sorri, vai mentindo a tua dor.
E ao notar que tu sorris,
Todo mundo irá supor
Que és feliz.

terça-feira, 26 de outubro de 2010

A ÁRVORE DA SERRA
(Augusto dos Anjos)


— As árvores, meu filho, não têm alma!
E esta árvore me serve de empecilho...
É preciso cortá-la, pois, meu filho,
Para que eu tenha uma velhice calma!

— Meu pai, por que sua ira não se acalma?!
Não vê que em tudo existe o mesmo brilho?!
Deus pos almas nos cedros... no junquilho...
Esta árvore, meu pai, possui minh'alma! ...


— Disse — e ajoelhou-se, numa rogativa:
«Não mate a árvore, pai, para que eu viva!»
E quando a árvore, olhando a pátria serra,

Caiu aos golpes do machado bronco,
O moço triste se abraçou com o tronco
E nunca mais se levantou da terra.

segunda-feira, 25 de outubro de 2010

NAVEGANTE DO AMOR
(Geralda Maria Vieira)

Navegante do amor,
Leva-me contigo
Por onde fores.
Hoje ou amanhã,
A qualquer hora,
Por este mundo afora.
Sabendo que estou contigo,
Meu mundo será
Bem mais divertido.

Leva-me contigo, navegante,
Para o céu, para o mar,
Para a floresta,
Para o jardim de Alá!...
Afoga-me com teus beijos,
Com teus desejos...
E me ensina a amar.

Leva-me contigo
Até as estrelas
E me atira de lá
Nos braços do além,
Para que eu possa estar
Sempre contigo,
E com mais ninguém.

Leva-me para onde
Eu possa abraçar-te
E sentir o intenso calor
Do teu corpo abrasante
E dá-me o teu amor.

Leva-me contigo
Para onde eu possa olhar
Dentro dos teus olhos
E neles ver o brilho
Reluzente das estrelas.

Leva-me para onde
Eu possa ouvir
Juras de eterno amor
E nos teus braços suspirar
Sem medo, sem receios,
Sem pudor...

Leva-me contigo,
Navegante do amor!...

sábado, 23 de outubro de 2010

ESCADA DA VIDA
(Muniz Santa Fé)


Quantos degraus se foram nesta escada
Que tateando subo – a mão tremente,
Para encontrar, em breve, à minha frente
Uma velhice, sem dúvida confortada.

Se já descambo a vértice da escalada
Sinto tudo ao meu redor, contente,
Disposição, saúde e a boa mente
Sempre a me guiar nesta jornada.


Na fé me hei de servir, ininterruptamente,
Pois já venci, muito longa, a caminhada
Tendo a graça feliz do Onipotente...

Aqui me prostro, de alma ajoelhada,
Vendo o Sol desta vida em seu poente
Sem esquecer os clarões da madrugada.

sexta-feira, 22 de outubro de 2010

CHORA
(Thamires Lúcia de Melo)

O magma super-aquecido
Cria terremotos,
Acende vulcões...
Placas tectônicas se movimentam
Causando maremotos e destruição.
Bombas nucleares feitas de plutônio
Poderão destruir a camada de ozônio,
Expondo o Planeta aos raios solares.
A Terra que hoje canta
Vai gemer e chorar.

Chora a Terra pela falta de compreensão,
Chora triste a Natureza,
Chora a mãe pelo seu filho
Vendo o futuro destruído,
Chora a Lua com seu brilho ofuscado
Pelos gases na atmosfera...
Chora a Terra feito peixe numa rede,
Vulnerável e indefeso,
Vendo a destruição do seu habitat...

quinta-feira, 21 de outubro de 2010

IPÊ
(Mestre Pau Pereira)

Mais belo que o Ipê
Nunca Vi
E nem vou ver

Mais belo que o Ipê
Nem eu
E nem você

Mais belo que o Ipê
Não vai ter
E ponho fé

Mais belo
Que o pé de Ipê
Só mesmo o Ipê de pé.

quarta-feira, 20 de outubro de 2010

TANAJURA
(José Geraldo Pires de Mello)

Por conta de um bom descanso
A que o meu gosto se inclina,
Para o banho de água quente,
Fui procurar a piscina.
Dentro d’água estava bom
Mas vi, na manhã tão linda,
Que a coisa na passarela
Bem melhor estava ainda.


Uma garota maciça
Entre as demais encontrei,
Com trajes tão reduzidos
Que juro que me espantei.
Usava um biquíni escasso,
Do qual, num critério justo,
Uma gravata far-se-ia,
Ligando as peças, a custo...

O sutiã não cumpria
Sua missão, que é de escora:
Escorava o que podia,
Deixando o resto de fora...
E a tanga-miniatura,
Numa dona tão rotunda,
Era assaz incompetente
Para conter tanta bunda...

Melhor de frente ou de costas?
Francamente, eu não sabia,
Porém, na terceira volta,
Jurei que a frente perdia,
Que a dona, pelo argumento
Das ancas fartas e duras,
Devia ser diplomada
- Rainha das Tanajuras!

Deixo o registro fiel,
De todo isento de enganos,
Que a pequena rebolava
Mas não cabia nos panos.
E vendo-a por trás, de novo,
No molejo em que ela ia,
Eu lhe dei, sem duvidar,
O grau dez que merecia!...

terça-feira, 19 de outubro de 2010

NOITE
(Menotti Del Picchia)

As casas fecham as pálpebras
das janelas e dormem.
Todos os rumores são postos em surdina,
todas as luzes se apagam.

Há um grande aparato
de câmara funerária
na paisagem do mundo.

Os homens ficam rígidos,
tomam a posição horizontal
e ensaiam o próprio cadáver.

Cada leito é a maquete de um túmulo.
Cada sono em ensaio de morte.

No cemitério da treva
tudo morre provisoriamente.

segunda-feira, 18 de outubro de 2010

OS BURACOS DO ESPELHO
(Arnaldo Antunes)

O buraco do espelho está fechado,
agora eu tenho que ficar aqui
com um olho aberto, outro acordado
no lado de lá onde eu caí.

Pro lado de cá não tem acesso,
mesmo que me chamem pelo nome,
mesmo que admitam meu regresso,
toda vez que eu vou a porta some.

A janela some na parede,
a palavra de água se dissolve
na palavra sede, a boca cede
antes de falar, e não se ouve.

Já tentei dormir a noite inteira...
Quatro, cinco, seis da madrugada
vou ficar ali nessa cadeira,
uma orelha alerta, outra ligada.

O buraco do espelho está fechado,
agora eu tenho que ficar agora.
Fui pelo abandono abandonado
aqui dentro do lado de fora.

sexta-feira, 15 de outubro de 2010

LUAR DE VERÃO
(Álvares de Azevedo)

O que vês, trovador? - Eu vejo a lua
Que sem lavar a face ali passeia;
No azul do firmamento inda é mais pálida
Que em cinzas do fogão uma candeia.

O que vês, trovador? - No esguio tronco
Vejo erguer-se o chinó de uma nogueira...
além se encontra a luz sobre um rochedo
Tão liso como um pau de cabeleira.

Nas praias lisas a maré enchente
S'espraia cintilante d'ardentia...
Em vez de aromas as doiradas ondas
Respiram efluviosa maresia!

O que vês, trovador? - No céu formoso
Ao sopro dos favônios feiticeiros
Eu vejo - e tremo de paixão ao vê-las –
As nuvens a dormir, como carneiros.

E vejo além, na sombra do horizonte,
Como viúva moça envolta em luto,
Brilhando em nuvem negra estrela viva
Como na treva a ponta de um charuto.

Teu romantismo bebo, ó minha lua,
A teus raios divinos me abandono,
Torno-me vaporoso... e só de ver-te
Eu sinto os lábios meus se abrirem de sono.

quinta-feira, 14 de outubro de 2010

SONETO DITADO NA AGONIA
(Bocage)

Já Bocage não sou!... À cova escura
Meu estro vai parar desfeito em vento...
Eu aos Céus ultrajei! O meu tormento
Leve me torne sempre a terra dura;

Conheço agora já quão vã figura,
Em prosa e verso fez meu louco intento:
Musa!... Tivera algum merecimento
Se um raio da razão seguisse pura.

Eu me arrependo; a língua quase fria
Brade em alto pregão à mocidade,
Que atrás do som fantástico corria:

Outro Aretino fui... a santidade
Manchei!... Oh! Se me creste, gente ímpia,
Rasga meus versos, crê na eternidade!.

quarta-feira, 13 de outubro de 2010

LEDA SERENIDADE DELEITOSA
(Luís Vaz de Camões)

Leda serenidade deleitosa,
que representa em terra um paraíso:
entre rubis e perlas, doce riso;
debaixo de ouro e neve, cor de rosa.

Presença moderada e graciosa,
onde ensinando estão despejo e siso
que se pode por arte e por aviso,
como por natureza, ser fermosa:

fala de quem a morte e a vida pende,
rara, suave; enfim, Senhora, vossa;
repouso nela alegre e comedido.

Estas as armas são com que me rende
e me cativa Amor; mas não que possa
despojar-me da glória de rendido.

terça-feira, 12 de outubro de 2010

NUVEM DE ALGODÃO “DOCE”
(Cláudia Liz)

Nesses versos vou agora
Fazendo o passado voltar,
Recordando a tua infância,
Brincando de adivinhar.

Olha só!... veja no céu
A nuvenzinha a correr
Que parece um carneirinho
Ou um pássaro a descer.

Bem branquinha,
Bem fofinha,
Corre, brinca de esconder.
Voa, Voa, corre, corre...
Nem dá tempo de eu ver!

Parece algodão doce.
Dá vontade de comer.
Um pirulito, um cachorrinho...
Em todas nuvens posso ver.

Vem aqui brincar comigo
De nuvenzinha admirar!
Brincadeira gostosinha,
Nuvenzinha adivinhar.