segunda-feira, 18 de julho de 2011

CÁRCERE
(Vivaldo Bernardes de Almeida)

Preso estou na clausura imensurável
desta vida, se isto for viver.
Já me força a mente insanável,
da poesia os meus versos escrever.

Diz refrão “não há bem que não se acabe”,
diz também “não há mal que sempre dure”.
Antes que outro mal se me desabe
rogo a Deus dos que tenho qu´eu me cure.

Nada mais neste mundo já me resta,
na prisão com grades de ferro bruto,
vivo eu na tristeza que me infesta.

E no mais o que sobra é a esperança
de um dia acabar o amargo fruto
e sair da borrasca à bonança.

segunda-feira, 11 de julho de 2011

DOCE FIGO
(Raquel Alves)

Minhas sanhas e manhas
Violam os teus sentidos,
Dando vazão ao teu tesão!
Sou fonte inesgotável de delícias
Em que chovem tuas carícias
E experimentamos tantas malícias!
Tuas mãos guiam minhas vontades.
Meu figo aberto, úmido e vermelho
Quer ser degustado e devorado
Pela fome insaciável
Da tua língua lasciva e faceira.
Depois, brincarei com o teu brinquedo
Com carinhos libidinosos e voluptuosos,
Despertando em teu corpo
Um arquipélago de desejos...
Nossas mãos em luxúria seguem nos buscando...
Entorpecido e arfante dominas meu corpo
E encharcas meu figo com o creme da tua Paixão!
Ela escorre, alucina, paralisa...
E nesse instante delirante,
Ofegantes e trêmulos,
Nos tornamos apenas UM
E explodimos outra vez...
Num Prazer desvairado e desmedido,
Ao som do nosso último grito!!!

domingo, 10 de julho de 2011

DE REPENTE...
(Aurenice Vítor)

De repente o meu tempo se esgotou
E tu não me disseste nada...
Não te toquei, não te beijei
E já era madrugada.

Tu apenas me olhaste
Triste, frio como o orvalho lá fora.
Noite clara, Lua cheia,
Madrugadinha... e eu indo-me embora.

De repente meu tempo se esgotou
E tu não me disseste nada...
Não reclamaste minha ausência
Nem minha dor tão calada!

O carinho frio do beijo,
Minha falta de desejo,
Tudo culpa dessa vida infame,
Daquele álcool ingerido,
Do telefonema anônimo
Que tu já havias esquecido.

Tudo conspirando contra o amor,
Afogando os prazeres nessa hora calada.
De repente tu viraste pro canto e dormiste
E minha dor aumentou, no fim da madrugada!

De repente tudo era silêncio e solidão,
E tu... não me disseste nada!

sábado, 9 de julho de 2011

TRISTE
(Wilson Gonçalves da Silva)

Bem que gostaria
De falar em alegria
E fazer alguém sorrir!
Mas não adianta tentar,
Pois algo irá me faltar,
Não vou conseguir!

De que vale a utopia,
Falsa alegria e sonhos banais?
Soma em teus dias, tuas fantasias
Então tu verás, as dores são mais!

Por que o palhaço
Pinta o rosto e adorna o nariz?
É para esconder o desgosto
E fingir que é feliz!

Na roseira deu espinhos
O sol tem seu ardor
Em meus caminhos de escombros
Não encontro o amor!

Gemendo e chorando
A minha cruz vou carregando
Até chegar ao fim
Desta vida de labor!

sexta-feira, 8 de julho de 2011

CANTEM OUTROS A CLARA COR VIRENTE
(Alphonsus Guimaraens)

Cantem outros a clara cor virente
Do bosque em flor e a luz do dia eterno...
Envoltos nos clarões fulvos do oriente,
Cantem a primavera: eu canto o inverno.

Para muitos o imoto céu clemente
É um manto de carinho suave e terno:
Cantam a vida, e nenhum deles sente
Que decantando vai o próprio inferno.

Cantem esta mansão, onde entre prantos
Cada um espera o sepulcral punhado
De úmido pó que há de abafar-lhe os cantos...

Cada um de nós é a bússola sem norte.
Sempre o presente pior do que o passado.
Cantem outros a vida: eu canto a morte...

quinta-feira, 7 de julho de 2011

A UM POETA
(Antero de Quental)

Tu que dormes, espírito sereno,
Posto à sombra dos cedros seculares,
Como um levita à sombra dos altares,
Longe da luta e do fragor terreno.

Acorda! É tempo! O sol, já alto e pleno
Afugentou as larvas tumulares...
Para surgir do seio desses mares
Um mundo novo espera só um aceno...


Escuta! É a grande voz das multidões!
São teus irmãos, que se erguem! São canções...
Mas de guerra... e são vozes de rebate!

Ergue-te, pois, soldado do Futuro,
E dos raios de luz do sonho puro,
Sonhador, faze espada de combate!

quarta-feira, 6 de julho de 2011

SERENO AMOR
(Marilene Anacleto)


Traz-me luz e quietude
A garoa que me chega,
Nos trabalhos manuais,
Nos dias de luzes acesas.

O movimento sereno,
A pressa da vida desfaz,
Respiração tranqüila, amena,
Recupera-me a energia da paz.


Essa paz que vem de dentro,
De fazer o que se quer,
Vem do movimento do encontro
De cada um com seu Ser.

Então cresce e contamina
Nos bolos de chuva da tarde.
Chega ele com um quente vinho
Abraços do amor que extravasa.

domingo, 3 de julho de 2011

CORDEL FILOSÓFICO – A SAGA DE ANTÍGONA
(Maria das Dores da Silva)

A história que vou contar
Não é da Idade Média
Vem lá da Grécia Antiga
Na verdade é uma tragédia
Vou tentar contar os fatos
Espero que não me engane
A história quem nos contou
Foi a mestra Regiane

Antígona é a personagem
Desse enredo incestuoso
Filha de Édipo e Jocasta
Teve um destino amargoso
Contado pelo grego Sófocles
Escrito em profundidade
Aborda amor e lealdade
E também dignidade

O destino trágico de Édipo
Não foi o suficiente
Para acalmar os deuses
Que estenderam aos descendentes
A maldição pelo crime
Cometido por seus pais
Então os filhos de Édipo
Nunca viveram em paz

Polinice e Eteocles
Em um gesto tresloucado
Matam-se às portas de Tebas
Por motivos contrariados
Um a favor de Creonte
Rei, tio deles e tirano
O outro contrário ao trono
Foi tido como profano

Creonte dá a Eteocles
As honras de um funeral
Por ser um seu aliado
Tem todo um ritual
Quanto ao irmão Polinice
Por fazer parte do embuste
Fica sem o funeral
Pra ser jogado aos abutres

Vendo o decreto do rei
As irmãs se alucinam
Quais as leis que seguirão
A dos homens ou a divina
Então Ismênia acata
A lei do tio tirano
Antígona desobedece
E segue com outro plano

Antígona dá ao irmão morto
O que diz a lei divina
Um sepultamento honrado
Como os deuses determinam
Creonte ao saber que a lei
Sofrera violação
Resolve punir Antígona
Com cruel condenação

O castigo de Antígona
É morrer emparedada
Será enterrada viva
Por sua audácia atirada
Seu crime foi a piedade
Por seu irmão insepulto
E seguindo as leis divinas
Causou ao rei um insulto

Hemon filho de Creonte
E de Antígona o amado
Pede clemência ao seu pai
Pra sua noiva piedade
Mas o rei com sua empáfia
De fazer seguir as leis
Não liberta a própria nora
E faz valer a lei do rei

Até o sábio Tirésias

Pede que o rei volte atrás
Mas quando o tirano cede
Vê que é tarde demais
Só percebe o que foi feito
Ao ver o seu filho amado
Com o corpo inerte da noiva
No próprio cinto enforcada

De cara a cara com o pai
Hemon o responsabiliza
Pela morte da amada
E rápido se encoleriza
Aponta a espada para o pai
Esse escapa, com efeito,
Hemon volta a sua espada
E crava no próprio peito

Ao ver o filho sem vida
Caído inerte em seus braços
Creonte grita de dor
E corre para o palácio
Lá encontra sua esposa
Eurídice, agonizando
Ela também se matara
Pela morte do filho culpando-o

O rei amaldiçoado
Entrega-se à própria sorte
O infeliz e culpado
Aguarda a própria morte
E com isso os deuses mostram
Sem nenhuma complacência
Que amaldiçoaram Édipo
Com toda sua descendência

Com essa tragédia Sófocles
Mostra uma grande questão
Qual das leis tem primazia
A humana ou a religião
O que se sabe é que até hoje
Os homens vivem um dilema
Seguem a moral ou a ética
É esse um grande problema

Pra discutir esse assunto
E chegar a uma verdade
Debato com outras pessoas
Na minha universidade
Mas pra concluir o fato
Não tenho sabedoria
E por isso é que me entrego
Com amor à Filosofia.

sexta-feira, 1 de julho de 2011

VERSOS ÍNTIMOS
(Vivaldo Bernades de Almeida)

- Ao poeta Augusto dos Anjos, morto em 1914 -


Quisera eu não ter nascido vivo.
Antes eu tivesse nascido morto,
inerte, imóvel, insensitivo,
jazendo a sete palmos, em conforto.


Na fundura, do jeito qu'eu ficasse,
ajustada a tampa do caixão,
ao pó, donde vim, ah... se eu voltasse!
levando comigo a solidão...!

Mas, querer ou não querer pouco importa,
pois, já cheguei ao topo da idade
e estou ciente da falsidade

dos meus sonhos amorosos, das quimeras,
as que, nelas, eu nem pensar quisera,
neste céu que o inferno me transporta!

E, de lá, eu acendo o meu cigarro,
mando aos diabos, da goela, o meu catarro
e nas bocas que me beijam eu escarro!

Planaltina-DF, 26/06/2011

quinta-feira, 30 de junho de 2011

Ó TREVAS, QUE ENLUTAIS A NATUREZA
(Bocage)

Ó trevas, que enlutais a Natureza,
Longos ciprestes desta selva anosa,
Mochos de voz sinistra e lamentosa,
Que dissolveis dos fados a incerteza;


Manes, surgidos da morada acesa
Onde de horror sem fim Plutão se goza,
Não aterreis esta alma dolorosa,
Que é mais triste que voz minha tristeza.

Perdi o galardão da fé mais pura,
Esperanças frustrei do amor mais terno,
A posse de celeste formosura.

Volvei, pois, sombras vãs, ao fogo eterno;
E, lamentando a minha desventura,
Movereis à piedade o mesmo Inferno.

terça-feira, 28 de junho de 2011

VERSO E REVERSO
(Euclides da Cunha)

Bem como o lótus que abre o seio perfumado
Ao doce olhar da estrela esquiva da amplidão
Assim também, um dia, a um doce olhar, domado,
Abri meu coração.

Ah! foi um astro puro e vívido, e fulgente,
Que à noite de minh'alma em luz veio romper
Aquele olhar divino, aquele olhar ardente
De uns olhos de mulher...

Escopro divinal - tecido por auroras -
Bem dentro do meu peito, esplêndido, tombou,
E nele, altas canções e inspirações ardentes
Sublime burilou!

Foi ele que a minh'alma em noite atroz, cingida,
Ergueu do ideal, um dia, ao rútilo clarão.
Foi ele - aquele olhar que à lágrima dorida
Deu-me um berço - a Canção!

Foi ele que ensinou-me as minhas dores frias
Em estrofes ardentes, altivo, transformar!
Foi ele que ensinou-me a ouvir as melodias
Que brilham num olhar...

E são seus puros raios, seus raios róseos, santos
Envoltos sempre e sempre em tão divina cor,
As cordas divinais da lira de meus prantos,
D'harpa da minha dor!

Sim - ele é quem me dá o desespero e a calma,
O ceticismo e a crença, a raiva, o mal e o bem,
Lançou-me muita luz no coração e na alma,
Mas lágrimas também!

É ele que, febril, a espadanar fulgores,
Negreja na minh'alma, imenso, vil, fatal!
É quem me sangra o peito - e me mitiga as dores.
É bálsamo e é punhal.

domingo, 26 de junho de 2011

LÁGRIMAS DA VIDA
(Álvares de Azevedo)


Se tu souberas que lembrança amarga
Que pensamento desflorou meus dias,
Oh! tu não creras meu sorrir leviano,
Nem minhas insensatas alegrias!

Quando junto de ti eu sinto, às vezes,
Em doce enleio desvairar-me o siso,
Nos meus olhos incertos sinto lágrimas...
Mas da lágrima em troco eu temo um riso!


O meu peito era um templo - ergui nas aras
Tua imagem que a sombra perfumava...
Mas ah! emurcheceste as minhas flores!
Apagaste a ilusão que o aviventava!

E por te amar, por teu desdém, perdi-me...
Tresnoitei-me nas orgias macilento,
Brindei blasfemo ao vício e da minh'alma
Tentei me suicidar no esquecimento!

Como um corcel abate-se na sombra,
A minha crença agoniza e desespera...
O peito e lira se estalaram juntos...
E morro sem ter tido primavera!

Como o perfume de uma flor aberta
Da manhã entre as nuvens se mistura,
A minh'alma podia em teus amores
Como um anjo de Deus sonhar ventura!

Não peço o teu amor... eu quero apenas
A flor que beijas para a ter no seio...
E teus cabelos respirar medroso...
E a teus joelhos suspirar d'enleio!

E quando eu durmo... e o coração ainda
Procura na ilusão tua lembrança,
Anjo da vida passa nos meus sonhos
E meus lábios orvalha d'esperança!

sexta-feira, 24 de junho de 2011

SÃO JOÃO
(Paulo Setúbal)

- A Luiz Piza Sob -

É noite… O santo famoso,
O doce, o meigo S. João,
Tivera um dia glorioso,
Dia de festa e de gozo,
Que encheu de estrondo o sertão.

Já cedo, em meio aos clamores,
Aos vivas do poviléu,
Lindo, enramado de flores,
Um mastro de quentes cores,
Subira em triunfo ao céu!

E agora, enquanto, alva e lesta,
Palpita a lua hibernal,
Na fazenda, toda festa,
Referve a alegria honesta
Da noite tradicional.

Dentro, com grande aparato,
Brilha enfeitado o salão:
Que há, nessa festa do mato,
Pessoas de fino trato,
Chegadas para o S. João…

Destaca-se entre essa gente
A flor do mundo local:
O padre, o juiz, o intendente,
– O próprio doutor Vicente
Que é deputado estadual!

Ante o auditório pasmado,
Que, num enlevo, sorri,
A Isabelinha Machado
Batuca, sobre o teclado,
Uns trechos do Guarani…

Tudo o que toca e assassina,
Recebe imensa ovação;
Todos, quando ela termina,
Põem-se a exclamar: ” Que menina!
Dá gosto! Que vocação!”

E ela, entre ingênua e brejeira,
Com ares de se vingar:
” Agora, queira ou não queira,
Seu Saturnino Pereira
Há de também recitar.”

—Surge, à força o Saturnino…
Rugem palmas ao redor!
É um tipo, esgalgado e fino,
Que sabe desdde menino,
Dizer Castro Alves de cor.

Na sala, muda e tranquila,
Tombam, com chama, os versos seus;
E ele, o letrado da vila,
Ao som da velha Dalila,
Lá vai: ” Foi desgraça, meu Deus...”

Após ouvir a estupenda
Flamância do seu falar,
No amplo salão da fazenda,
Os velhos jogos de prenda
Reclamam o seu lugar.

Começa então a berlinda.
Risos. Cochichos. Zum-zum.
– De pé, donairosa e linda.
Pergunta a D. Florinda
Os dotes de cada um:

Por que razão, seu Martinho,
Foi à berlinda a Lelê?
– ” Porque olha muito ao vizinho”;
“Porque é má; porque é um anjinho”;
“Porque é vaidosa”; “porque…”

E todo o mundo, a porfia,
Põe farpas na indiscreção…
E enquanto, ingênua e sadia,
Essa campônea alegria
Faz tumultuar o salão.

Lá fora, alegre e gabola,
Nun terreiro de café,
Ao rude som da viola,
A caboclada rebola
Num tremendo bate-pé!

A filha do Zé-Moreira
É o mimo deste São João;
À luz da rubra fogueira,
Requebra a guapa trigueira
Ao lado de Chico Peão.

Candoca, a noiva do Jango,
Baila num passo taful;
É a flor que, nesse fandango,
Tem lábios cor de morango,
Vestido de chita azul.

No sapateio se nota,
Aos risos dos que lá estão,
Nhô Lau, de esporas e bota.
Dançando junto à nhá Cota,
Viúva do Conceição….

A voz do pinho que chora,
Por sob a paz do luar,
Fremindo vai, noite afora,
Essa alegria sonora
Da caboclada a bailar!

E do salão, qua ainda brilha
Num faiscante esplendor,
Chegam os sons da quadrilha,
Que alguém ao piano dedilha
Com indomável furor.

E no sarau campezino,
Nessa festa alegre e chã
Ruge a voz do Saturnino,
Que grita, esgalgado e fino:
“Balancez! Tour! En avant...”

quarta-feira, 22 de junho de 2011

RIO
(Daniel Conrade)

Além das lentes,
além dos olhos,
além da mente,
além da curva adjacente.

Ser um rio,
ser chuva,
ser peixe,
ser mar
e ser nascente.

É um fio,
é corda,
é feixe,
é vento,
é folha
e é corrente.

É um raio,
é a esfera.
É seixo,
é areia,
é terra
e é semente.

Se eu me perdi à margem,
é porque precisava de ar.
Estar perto de si, longe de ser
um náufrago esperando alguém voltar.

segunda-feira, 20 de junho de 2011

CERQUILHA
(Yuri Emanuel)

Sinto falta de tudo que tenho agora.
Ontem, amanhã chegou e se demora
Numa rima interior, calada
Intercalada,
Como trança ou ponto cruz.

Sinto o tempo
À têmpora,
Tempo mau,
Temporal.
Tempo.


Sinto o verso, reverso, reflexo, convexo
Matinal.

Sinto as cores e sinto falta
Sinto o bem, e passo mal
Mal passo,
Descompasso,
Me faz voltar.

E como se ordena,
Ela sentencia
“Chuva.”
E o céu se abre em cometas d’água
No rastro de luz do arco íris.

Íris,
Nos teus olhos
E nos meus,
Ires.
Se visses,
Se risses,
Se ires…
Se vão,
Se vácuo,
Sifão.