quarta-feira, 1 de setembro de 2010

PÉTALA
(Djavan)

O seu amor
Reluz
Que nem riqueza
Asa do meu destino
Clareza do tino
Pétala
De estrela caindo
Bem devagar...

Oh! meu amor!
Viver
É todo sacrifício
Feito em seu nome
Quanto mais desejo
Um beijo, um beijo seu
Muito mais eu vejo
Gosto em viver.

Por ser exato
O amor não cabe em si
Por ser encantado
O amor revela-se
Por ser amor
Invade
E fim!...

terça-feira, 31 de agosto de 2010

METADE
(Oswaldo Montenegro)

Que a força do medo que tenho
não me impeça de ver o que anseio
que a morte de tudo em que acredito
não me tape os ouvidos e a boca
porque metade de mim é o que eu grito
mas a outra metade é silêncio.
Que a música que ouço ao longe
seja linda ainda que tristeza
que a mulher que amo seja pra sempre amada,
mesmo que distante
porque metade de mim é partida
mas a outra metade é saudade.
Que as palavras que eu falo
não sejam ouvidas como prece
e nem repetidas com fervor
apenas respeitadas como a única coisa
que resta a um homem inundado de sentimentos
porque metade de mim é o que ouço
mas a outra metade é o que calo.
Que essa minha vontade de ir embora
se transforme na calma e na paz que eu mereço
e que essa tensão que me corrói por dentro
seja um dia recompensada
porque metade de mim é o que penso
mas a outra metade é um vulcão.
Que o medo da solidão se afaste
e que o convívio comigo mesmo
se torne ao menos suportável.
Que o espelho reflita em meu rosto num doce sorriso
que eu me lembro ter dado na infância
porque metade de mim é a lembrança do que fui
a outra metade não sei.
Que não seja preciso mais do que uma simples alegria
pra me fazer aquietar o espírito
e que o teu silêncio me fale cada vez mais
porque metade de mim é abrigo
mas a outra metade é cansaço.
Que a arte nos aponte uma resposta
mesmo que ela não saiba
e que ninguém a tente complicar
porque é preciso simplicidade pra fazê-la florescer
porque metade de mim é platéia
e a outra metade é canção.
E que a minha loucura seja perdoada
porque metade de mim é amor
e a outra metade também.

segunda-feira, 30 de agosto de 2010

LUZ DENTRO DE MIM
(Patrícia Ximenes)

O teu amor é brilho uniforme
Que clareia os meus pensares
Iluminando meu sul e meu norte,
Amor infinito feito os mares

Que ninguém sabe onde começam
Muito menos onde se terminam
Sei apenas que são grandiosos
Donos de uma beleza que fascina.

Estonteantes como o teu olhar
Que hipnotiza e muito cativa
Meu frágil e indefeso coração
Agora emite uma luz que irradia

Feito melodia em suave canção
Fazendo nascerem sonhos e alegrias
E um amor que não cabe nas mãos,
Uma realidade que eu tanto queria.

sábado, 28 de agosto de 2010

TEUS SEIOS
(J. G. de Araújo Jorge)

Teus seios... quando os sinto, quando os beijo
na ânsia febril de amante incontentado,
são pólos recebendo o meu desejo,
nos momentos sublimes de pecado...

E às manhãs... quando acaso, entre lençóis
das roupagens do leito, saltam nus,
lembram, não sei, dois lindos girassóis
fugindo à sombra e procurando a luz!...

que se ostenta a tremer em dois botões
na primavera ardente de um amor
que vive para as nossas sensações...

Túmidos... cheios... palpitantes, como
dois bagos do teu corpo de sereia,
tem um rubro botão em cada pomo
como duas cerejas sobre a areia...

Quando os tenho nas mãos... Quantas delícias!...
Arrepiam-se, trêmulos , sensuais,
e ao contato nervoso das carícias
tocam-me o peito como dois punhais!...

Meu lúbrico prazer sempre consolo
na carne destas ondas revoltadas,
que são como taças emborcadas
no moreno inebriante do teu colo...

quinta-feira, 26 de agosto de 2010

FLOR NIRVANIZADA
(Cruz e Sousa)

Ó cegos corações, surdos ouvidos,
Bocas inúteis, sem clamor, fechadas,
Almas para os mistérios apagadas,
Sem segredos, sem eco e sem gemidos.

Consciências hirsutas de bandidos,
Vesgas, nefandas e desmanteladas,
Portas de ferro, com furor trancadas,
Dos ócios maus histéricos Vencidos.

Desenterrai-vos das sangrentas furnas
Sinistras, cabalísticas, noturnas
Onde ruge o Pecado caudaloso...

Fazei da Dor, do triste Gozo humano,
A Flor do Sentimento soberano,
A Flor nirvanizada de outro Gozo!

quarta-feira, 25 de agosto de 2010

SONETO
(Violante do Céu)

Que suspensão, que enleio, que cuidado
É este meu, tirano Cupido?
Pois tirando-me enfim todo o sentido
Me deixa o sentimento duplicado.

Absorta no rigor de um duro fado,
Tanto de meus sentidos me divido,
Que tenho só de vida o bem sentido
E tenho já de morte o mal logrado.

Enlevo-me no dano que me ofende,
Suspendo-me na causa de meu pranto
Mas meu mal (ai de mim!) não se suspende.

Ó cesse, cesse, amor, tão raro encanto
Que para que de ti não se defende
Basta menos rigor, não rigor tanto.

terça-feira, 24 de agosto de 2010

UM CEGO
(Jorge Luis Borges)

Não sei qual é a face que me mira
quando miro essa face que há no espelho;
e desconheço no reflexo o velho
que o escruta, com silente e exausta ira.
Lento na sombra, com a mão exploro
meus traços invisíveis. Um lampejo
me alcança. O seu cabelo, que entrevejo,
é todo cinza ou é ainda de ouro.
Repito que perdi unicamente
a superfície vã das simples coisas.
Meu consolo é de Milton e é valente,
porém penso nas letras e nas rosas.
Penso que se pudesse ver meu rosto
saberia quem sou neste sol-posto.

segunda-feira, 23 de agosto de 2010

EU NÃO EXISTO SEM VOCÊ
(Vinícius de Moraes)

Eu sei e você sabe,
Já que a vida quis assim,
Que nada nesse mundo
Levará você de mim.
Eu sei e você sabe
Que a distância não existe,
Que todo grande amor
Só é bem grande se for triste,
Por isso, meu amor,
Não tenha medo de sofrer
Que todos os caminhos
Me encaminham a você.

Assim como o oceano
Só é belo com luar,
Assim como a canção
Só tem razão se se cantar,
Assim como uma nuvem
Só acontece se chover,
Assim como o poeta
Só é grande se sofrer,
Assim como viver
Sem ter amor não é viver,
Não há você sem mim
E eu não existo sem você.

domingo, 22 de agosto de 2010

TUDO É O OLHAR
(Clarice Lispector)

Não te amo mais
Estarei mentindo dizendo que
Ainda te quero como sempre quis
Tenho certeza que
Nada foi em vão
Sinto dentro de mim que
Você não significa nada
Não poderia dizer mais que
Alimento um grande amor
Sinto cada vez mais que
Já te esqueci!
E jamais usarei a frase
Eu te amo!
Sinto, mas tenho que dizer a verdade
É tarde demais...

Agora, releia o texto de baixo para cima

sábado, 21 de agosto de 2010

SONHO AZUL
(Márcia Theóphilo)

Voa gavião, leva meus olhos com as tuas asas
e mostra-me onde mora o deus jaguar
No sonho azul celeste, que abraça a terra
no sonho sereno em alto
que somente os pássaros acolhe.
Eu quero ver o deus jaguar.

Um pássaro verdadeiro atravessa o céu
ou é um pássaro de metal
que voa por longas distâncias
e por onde voa o nosso pensamento?

sexta-feira, 20 de agosto de 2010

VERDES SÃO OS CAMPOS
(Luís Vaz de Camões)

Verdes são os campos,
De cor de limão:
Assim são os olhos
Do meu coração.

Campo, que te estendes
Com verdura bela;
Ovelhas, que nela
Vosso pasto tendes,
De ervas vos mantendes
Que traz o Verão,
E eu das lembranças
Do meu coração.

Gados que pasceis
Com contentamento,
Vosso mantimento
Não no entendereis;
Isso que comeis
Não são ervas, não:
São graças dos olhos
Do meu coração.

quinta-feira, 19 de agosto de 2010

CONTEMPLO O LAGO MUDO
(Fernando Pessoa)

Contemplo o lago mudo
Que uma brisa estremece.
Não sei se penso em tudo
Ou se tudo me esquece.

O lago nada me diz,
Não sinto a brisa mexê-lo
Não sei se sou feliz
Nem se desejo sê-lo.

Trêmulos vincos risonhos
Na água adormecida.
Por que fiz eu dos sonhos
A minha única vida?

quarta-feira, 18 de agosto de 2010

SENTIMENTO DO MUNDO
(Carlos Drummond de Andrade)

Tenho apenas duas mãos
e o sentimento do mundo,
mas estou cheio de escravos,
minhas lembranças escorrem
e o corpo transige
na confluência do amor.


Quando me levantar, o céu
estará morto e saqueado,
eu mesmo estarei morto,
morto meu desejo, morto
o pântano sem acordes.

Os camaradas não disseram
que havia uma guerra
e era necessário
trazer fogo e alimento.
Sinto-me disperso,
anterior a fronteiras,
humildemente vos peço
que me perdoeis.

Quando os corpos passarem,
Eu ficarei sozinho
Desfiando a recordação
do sincero, da viúva e do microscopista
que habitavam a barraca
e não foram encontrados
ao amanhecer

esse amanhecer
mais noite que a noite

terça-feira, 17 de agosto de 2010

LUA
(Bruna Lombardi)

Ele me deitou nua
em cima do calçamento,
e eu sabia que era loucura.
que era coisa de momento.
Pensei até que era a lua
danada no quarto crescente
ou era fúria de maré
crescendo dentro da gente;
e eu me sentia suada,
e eu me sentia escura.

Mas não tinha medo de nada
que toda paixão da coragem
e me deitei na calçada
com orgulho e vadiagem
e quanto mais me sujava,
mais me sentia à vontade,
mais eu queria e deixava,

mais eu pedia e mais dava
e ria, gemia e brincava
de ter tanta liberdade.
Ele me deitou na rua,
numa qualquer de passagem
e eu sabia que era loucura,
que era coisa de um momento,
de grande camaradagem.

segunda-feira, 16 de agosto de 2010

DESEJO
(Victor Hugo)

Desejo primeiro que você ame,
E que amando, também seja amado.
E que se não for, seja breve em esquecer.,
E que esquecendo, não guarde mágoa.

Desejo, pois, que não seja assim,
Mas se for, saiba ser sem se desesperar.
Desejo também que tenha amigos
Que, mesmo maus e inconseqüentes,
Sejam corajosos e fiéis;
E que pelo menos em um deles
Você possa confiar sem duvidar.

E porque a vida é assim,
Desejo ainda que você tenha inimigos;
Nem muitos, nem poucos,
Mas na medida exata para que
Algumas vezes você se interpele
A respeito de suas próprias certezas.
E que entre eles
Haja pelo menos um que seja justo.

Desejo depois, que você seja útil,
Mas não insubstituível.
E que nos maus momentos,
Quando não restar mais nada,
Essa utilidade seja suficiente
Para manter você de pé.

Desejo ainda que você seja tolerante,
Não com os que erram pouco,
Porque isso é fácil,
Mas com os que erram muito e irremediavelmente.
E que fazendo bom uso dessa tolerância,
Você sirva de exemplo aos outros.

Desejo que você, sendo jovem,
Não amadureça depressa demais;
E que sendo maduro,
Não insista em rejuvenescer.
E que sendo velho,
Não se dedique ao desespero,
Porque cada idade tem o seu prazer e a sua dor.

Desejo, por sinal, que você seja triste.
Não o ano todo, mas apenas um dia,
E que nesse dia,
Descubra que o riso diário é bom,
O riso habitual é insosso
E o riso constante é insano.

Desejo que você descubra,
Com o máximo de urgência
Acima e a respeito de tudo,
Que existem oprimidos, injustiçados e infelizes,
E que estão bem à sua volta.

Desejo ainda
Que você afague um gato, alimente um cuco
E ouça o joão-de-barro
Erguer triunfante o seu canto matinal,
Porque assim você se sentirá bem por nada.

Desejo também
Que você plante uma semente, por menor que seja,
E acompanhe o seu crescimento
Para que você saiba
De quantas muitas vidas é feita uma árvore.

Desejo, outrossim, que você tenha dinheiro,
Porque é preciso ser prático
E que pelo menos uma vez por ano
Coloque um pouco dele na sua frente e diga:
"Isso é meu"
Só para que fique bem claro
Quem é o dono de quem.

Desejo também
Que nenhum de seus afetos morra
Por eles e por você,
Mas que se morrer
Você possa chorar sem se lamentar
E sofrer sem se culpar.

Desejo, por fim,
Que você, sendo homem, tenha uma boa mulher
E que sendo mulher, tenha um bom homem;
Que se amem hoje, amanhã e nos dias seguintes.
E quando estiverem exaustos e sorridentes,
Ainda haja amor pra recomeçar.

E se tudo isso acontecer,
Não tenho mais nada a lhe desejar.